Esperava por aquele momento como se fosse o último. Contava os segundos para olhar dentro de seus olhos, que me remetiam a sentimentos que iam além de meu imaginário. Você me fazia bem, me mantinha em seus braços de forma com que nada pudesse me atingir. Me lembro bem do seu sorriso torto, da sua face pálida, mas que se corava quando um beijo eu lhe dava. Eramos felizes. Você me completava, era tudo o que eu tinha, mas eu sempre quis mais. Certo dia me cansei do seu amor, do seu carinho, me cansei de seus beijos faces e sorrisos, e decidi partir sem dar explicações. Queria viver a vida boemia, talvez assim esquecesse do amor, que foi tão forte que de repente me entediou. Aproveitei noites e mais noites na companhia de cortesãs e acompanhantes, mas nenhuma se comparava à você. De vez em quando perguntava à conhecidos como você estava, eles sempre me negavam a responder. Até que percebi que a vida devassa não me levara a lugar algum, só me confirmara cada vez mais que o meu lugar era com você e ninguém mais. Queria de novo seu carinho, seu olhar, seu sorriso, seu beijo, seu abraço, acima de tudo queria você. Em todos os lugares que ia, meus olhos involuntariamente procuravam por você. Com muita insistência de minha parte uma antiga amiga me contou onde você morava. Mas chegando lá percebi que ninguém estava. Todos os dias batia à sua porta, mas nada ali parecia se mover, tudo parecia morto. Até que um dia, quando à sua porta eu bati escutei um choro baixinho, mas que reconheceria mesmo que à vinte mil léguas submarinas. Era você. Deixei por debaixo da porta um bilhete com local e horário marcados, era minha última esperança, eu precisava te ver. A "escadaria para o paraíso" fora o local marcado, era o nosso lugar, e então, às dezenove horas lá estava eu, escondido entre as pilastras esperando por você. Meu coração mantinha-se disparado, a cada segundo percebia estar mais perto de você. Ouvi passos singelos no piso de madeira de que era feita a ingrime escada. Senti sua presença, era você. Me afastei do topo da escadaria, agora mais escondido, escutava os passos cada vez mais rápidos, até que se paralisaram. Sai do meu esconderijo e não hesitei em abrir um enorme sorriso. Ela estava com uma palidez assustadora, parecia não ver a luz do dia há anos. Estava bem diferente da época em que estávamos juntos, me lembro dela radiante, mas agora não mais. Nos olhamos incansavelmente por alguns segundos, até que estiquei meus braços para que fossem de encontro às mãos de minha doce amada, que hesitou e tropeçou e rolando saiu escada à baixo. Fiquei estático por um longo segundo, não sabia o que fazer. Quando desci as escadas vi seu corpo, que já pairava imóvel sob o assoalho úmido daquele local. Involuntariamente coloquei minha mão sobre a sua, mas já não sentia seu pulso. Estava morta. Eu matei quem mais me amou nessa vida. [...] Era um monstro, esperei tanto tempo por esse reencontro e tudo acaba assim, sem nenhuma palavra trocada. [...] Mesmo que fosse estranho, estava feliz, se ela fora a meu encontro foi porque ainda me amara. Não era digno de tão puro amor...
Julia Dutra
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